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domingo, 22 de setembro de 2013


"Todo aquele que ler estas explanações, quando tiver certeza do que afirmo, caminhe lado a lado comigo; quando duvidar como eu, investigue comigo; quando reconhecer que foi seu o erro, venha ter comigo; se o erro for meu, chame minha atenção. Assim haveremos de palmilhar juntos o caminho da caridade em direção àquele de quem está dito: Buscai sempre a Sua face." Agostinho de Hipona


Quando os crentes davam certo (1)

   

    A primeira razão porque os crentes davam certo no Brasil, no passado, é que eles eram discriminados e perseguidos. Só entrava para as Igrejas evangélicas quem estava disposto a pagar o preço. O martírio integrava o protestantismo. Quem não agüentava o tranco, saía. Isso purificava a Igreja e lhe dava grande coesão interna. Todos eram “de mesmo", naquele contexto adverso não havia lugar para "crentes festivos".

    Durante a vigência da Constituição Imperial (1824) o documento de identidade era a certidão de Batismo na Igreja Católica Romana. Quem não fosse batizado, nem existia, nem era cidadão. Os protestantes, como os demais não-católicos, não podiam ser funcionários públicos, não podiam se candidatar a cargos eletivos, seus casamentos eram nulos (todo mundo, tecnicamente, "amasiado" por amor a Cristo), porque o único documento de casamento válido era o emitido pela Igreja Romana, e quando a pessoa protestante morria tinha que ser "plantado" em algum terreno, porque todos os cemitérios eram administrados pelas Paróquias católicas romanas, e nele só podiam se enterrar quem tivesse recebido o rito de extrema-unção de um sacerdote daquela confissão. Com a Constituição republicana de 1891 veio a separação Igreja-Estado, cessaram as discriminações legais, mas aumentaram as perseguições. As novas levas de padres e freiras missionários que foram importados pela Igreja de Romana na Primeira República (1889-1930) vinham com a missão de "combater os protestantes". Crianças e jovens eram perseguidos nas escolas, profissionais nos empregos, proibia-se o aluguel de imóveis comerciais e residenciais para os "nova-seita", também conhecidos como "bodes", Igrejas eram apedrejadas, pessoas fisicamente agredidas, amizades e vínculos familiares eram rompidos. A imprensa incitava contra essa fé "estrangeira". O hino de um Congresso Eucarístico cantava: "Quem não for bom católico, bom brasileiro não é". Bíblias eram queimadas. Paredes de templos protestantes eram levantadas de dia, para serem derrubadas de noite. "Protestante é pobre, burro e feio". Casar minha filha com um deles, nem pensar... Na cidade de minha família materna, em Alagoas, um padre holandês, se referindo à artéria onde residiam as melhores famílias da cidade, compusera a quadrinha de gozação:

"Na Rua do Rosário, ninguém pode mais passar São bodes e cabrinhas, todos eles a berrar..."

    Com raras exceções localizadas, esse quadro não mudou muito até o início dos anos 1960, e a realização do Concílio Vaticano 11.

Mais de um século de dureza! Naquele contexto, que requeria autenticidade, a permanência e o crescimento do protestantismo foram marcados por atos de heroísmo e muito martírio. Naquele contexto, os crentes davam certo ...

 

 Quando os crentes davam certo (2)

 

"Foram desleais e infiéis com os seus antepassados...” (Sl. 78.57).

    Os crentes davam certo porque eles eram crentes. Ou seja, chegavam à igreja no meio de todas as dificuldades, porque eram confrontados com uma clara mensagem evangelística, por meio da pregação, dos testemunhos e dos hinos. Não havia crentes por tradição, nem por adesão, mas apenas por conversão. Todos os evangélicos conheciam o "Plano de Salvação", pois haviam sido expostos ao mesmo, e respondido ao mesmo. Agora, se esperava que passassem a compartilhá-la com os outros. A tônica era a conversão, o novo nascimento, a mudança, a transformação, a certeza da vida eterna, o confessar a Jesus Cristo "como único Senhor e Salvador", que culminava com o rito de "profissão de fé" ou "Confirmação", de forma pública.

No culto, eram comuns os apelos para que as pessoas "aceitassem a Cristo", ou que "se entregassem á Cristo", levantando a mão, ou vindo à frente. Igrejas organizavam semanas, cruzadas ou campanhas evangelísticas, geralmente com um orador convidado, e toda uma preparação e divulgação, com distribuição de convites e folhetos evangelísticos. Nos cultos, com freqüência, se incluía o testemunho de conversão de um irmão ou de uma irmã, sempre na tônica:

"Eu era assim, Cristo me tornou assim".

    Como todos os crentes conheciam o Plano de Salvação e se esperava que compartilhasse com os outros, toda a Igreja era uma Igreja de evangelistas. As famílias crentes eram estimuladas, ao final do dia, a celebrar em torno da mesa da última refeição, o seu "culto doméstico", dirigido pelo pai da família. Convidavam-se parentes e vizinhos. Se alguém se mudava para outra cidade, o culto doméstico e cultos evangelísticos nos lares, de iniciativa dos próprios leigos (como expressão do sacerdócio universal de todos os crentes) era o início de muitas novas Igrejas, e “o Senhor ia acrescentando aqueles que eram salvos".

    Com todos passando pela experiência de conversão, conhecendo o Plano de Salvação e se considerando um evangelista, os crentes davam certo...

 

Quando os crentes davam certo (3)

   

    Os crentes eram discriminados e perseguidos. Os crentes eram convertidos e conheciam o Plano de Salvação e... os crentes conheciam a Bíblia. Aliás, depois dos epítetos de "novas-seitas" e "bodes" eles eram conhecidos como "os Bíblias", "Fulano é um Bíblia". Isso porque assim que alguém se convertia, a primeira coisa que fazia era comprar uma Bíblia.

    O Brasil era um país de uma imensa maioria de analfabetos, e raríssimos católicos romanos possuíam uma Bíblia (que eram caras). As edições protestantes, que começaram. a chegar regularmente ao Brasil há exatos duzentos anos, com a vinda da Família Real, era a da tradução de João Ferreira de Almeida, e de capa preta. Como ninguém tinha automóvel, lá iam heróicos e orgulhosos, os homens de paletó e as mulheres bem vestidas, com sua reluzente Bíblia de capa preta debaixo do braço, sob os olhares e os murmúrios de censura dos que os viam passar.

Gente que não sabia ler levava a Bíblia, assim mesmo, como símbolo, e procuravam aprender a ler, para poder ler a Bíblia. Os novos convertidos eram submetidos, imediatamente, a um curso intensivo sobre as Sagradas Escrituras, aprendendo a distinguir Antigo de Novo Testamento, capítulo de versículo, e livro histórico de livro poético, além de memorizar versículos considerados importantes para o evangelismo e para a santidade. Nos cultos de estudos bíblicos, havia uma espécie de "gincana", para ver quem achava determinado versículo primeiro.

    As edições protestantes da Bíblia eram queimadas em praça pública por beatos enfurecidos, estimulados por sacerdotes radicais. Tais Bíblias eram consideradas "falsas", e muita gente se converteu por comprá-las por mera curiosidade. Houve casos de que os chamados "colportores" (vendedores itinerantes de Bíblias) que se adentravam no interior do país montados em mulas, deixavam uma Bíblia em um povoado, vila ou cidade, e, regressando um ou dois anos depois, encontravam uma Igreja funcionando, sem qualquer vínculo com organizações, fruto da mera leitura do texto sagrado.

    Quando se cantava "Minha Bíblia, meu prazer, meu tesouro quero ter" ou "Enquanto Salvador teu Livro eu ler, meus olhos vem abrir, pois quero ver", os crentes davam certo...

 

Quando os crentes davam certo (4)

   

    O que acontecia, então, quando uma pessoa se convertia? Pegava-se "no laço" e a fazia membro da Igreja no dia seguinte? Longe disso. Existiam as classes especiais de estudo, denominadas de "Classes de Novos Convertidos", ou "Classes de Catecúmenos", com uma duração mínima de seis meses, de presença obrigatória para os novos crentes. Ali eles estudavam o Plano de Salvação; as Sagradas Escrituras, as Doutrinas Básicas da Fé Cristã; Ética e Características da Denominação (inclusive o compromisso de contribuir com o dízimo), enquanto eram observadas em seu novo comportamento.

    Somente depois desse período eram examinados por conselhos, comissões ou assembléias (conforme a prática denominacional) e eram batizadas e/ou faziam a Pública Profissão de Fé/Confirmação, um rito de suma importância para a nova criatura, que se tomava membro pleno da nova comunidade de fé.

    Nada de pressa, nada de superficialidade, nada de preocupação com números. O resultado era a estabilidade, as pessoas ficavam na Igreja, não havia “rotatividade”. Depois de confesso, o novo crente se tornava aluno regular das classes da Escola Bíblica Dominical, onde estudaria as Escrituras para o resto de sua vida. As “uniões de treinamento” (homens, mulheres, jovens) também tinham a sua literatura, e faziam a sua parte na educação continuada dos crentes. Estes eram estimulados á leitura devocional diária da Bíblia, e a livros evangélicos, além de assinarem os jornais oficiais de suas denominações (“O Cristão”, dos congregacionais; “O Jornal Batista”; “O Brasil Presbiteriano”; “O Estandarte”, Episcopal etc.), para se manter informado sobre o que acontecia em seus arraiais.

    No campo de apologética, havia palestras e textos que ensinavam como diferenciar o Protestantismo do Catolicismo Romano, ou as diferenças entre os diversos ramos do Protestantismo. Isso requeria alta escolaridade (algo muito raro na época), mas era usual para o crente mais simples. Com um lastro de conhecimento desses os crentes davam certo...

 

 (5) Quando os crentes davam certo (5)

   

    Naquele tempo o cenário religioso brasileiro era mais claro e menos “plural”; havia diversas expressões do catolicismo romano (mais de 90% da população), o espiritismo kardecista e os cultos afro-brasileiros (chamados em conjunto de “macumba”), além d um ou outro “livre-pensador” ou seguidor do Positivismo de Augusto Comte. Os protestantes de migração (luteranos alemães na zona rural, anglicanos britânicos nos centros urbanos) já estavam aqui desde a Regência, mas “não ofendiam ninguém”, pois não evangelizavam brasileiros. Aí, na segunda metade do século XIX chegaram as Igrejas históricas de missão (congregacionais, presbiterianos, batistas, metodistas e anglicano-episcopais), que foram os únicos entre 1855-1909.

    Diante de adversários em comum, e a partir de uma base de crenças em comum (todos eram evangélicos) se criou a consciência de se pertencer a um mesmo “povo”: todos eram evangélicos ou “crentes”, antes de serem batistas ou presbiterianos. Rivalidade sempre houve, mas em um nível menor. Todos se sentiam um. Depois do Congresso do Panamá, de 1916, se promoveu a produção conjunta de material para a Escola Bíblica Dominical, e, entre 1934-1964, a Confederação Evangélica Brasileira (CEB) aglutinava os protestantes, promovia eventos, imprimia textos, e, tanto o “Dia da Bíblia” (segundo domingo de dezembro) como o “Dia da Reforma” (31 de outubro) eram nossos “feriados protestantes”, comemorados por todos.  

    Havia um respeito e uma ética nos relacionamentos, e não uma competição selvagem. Instituições unificadas como "cemitérios protestantes" ou "hospitais evangélicos" eram demonstrações do esforço de todos.

    O importante é que todos consideravam o outro como um "salvo", um "evangélico", um "crente", um dos nossos. Havia um "orgulho santo", meio judaico, de pertencermos todos ao Israel de Deus, ao Povo da Nova Aliança, além do fato de que todos eram igualmente discriminados e chamados de "bodes". Quando os "bodes" eram unidos, os crentes davam certo...

 

Quando os crentes davam certo (6)

   

    Os crentes, desde o início, formavam um povo que cantava. Dona Sarah Kalley, esposa do primeiro missionário congregacional, o pastor e médico escocês Robert R. Kalley, além de criar a primeira Escola Bíblica Dominical, em Petrópolis, foi a grande responsável pela primeira compilação de cânticos evangélicos, denominada de "Salmos e Hinos", usado por gerações e matriz de quase todos os cancioneiros protestantes do País,

    Muitos hinos, com uma densidade de mensagem em sua letra, foram traduções da época da reforma, do pietismo, dos avivamentos, do movimento missionário, e, muitos foram compostos por autores brasileiros (Hinário Evangélico, Cantor Cristão, Harpa Cristã, e tantos outros). Havia hino para cada tema (fé, amor, arrependimento, conversão, santidade) e para cada ocasião (natal, páscoa, dia da reforma, funerais), o que reforçava a mensagem, adequados aos sermões. Canto de alegria, canto de quebrantamento, canto de apelo evangelístico, de forma congregacional, de corais ou de solos.

    Muita gente foi tocada e se converteu pela via da música. Ainda estão vivos dois dos grandes pioneiros das gravações de hinos, os cantores Feliciano Amaral e Luiz de Carvalho. No rádio, os dois primeiros programas foram "A Voz da Cruz", da Igreja Luterana (IELB) com o Reverendo Rodolfo Hasse, tendo como fundo o hino "Castelo Forte", e "A Voz da Profecia" da Igreja Adventista, com o Pastor Roberto Rabelo e o Quarteto Harmonia, com o hino "Servos de Deus a Trombeta Tocai: Jesus em Breve Virá".

    O piano, o órgão e o violino foram os primeiros instrumentos. Cada crente tinha seu(s) hino(s) favorito(s). As pessoas ficavam impressionadas com hinos cantados em funerais. Como um povo que cantava sempre, com muita convicção, com harmonia melódica, e com letras com conteúdo (que você entendia quando cantada), os crentes tinham que dar certo...

 

Quando os crentes davam certo (7)

   

    Olhando as fotografias das primeiras Igrejas protestantes de missão no Brasil, se percebe uma maioria de homens. Era uma sociedade ainda patriarcal, de homens mais letrados e com mais tempo livre. Em situações de mudanças religiosas, há uma tendência de maior resistência por parte das mulheres. Por outro lado, os desdobramentos da ética protestante da santidade no mundo, pela ascese, o trabalho e a poupança teve um impacto dos mais significativos em um país escravocrata e aristocrata.

    O alcoolismo, o tabagismo, a jogatina, as farras, os prostíbulos, a vida boêmia, onde se gastava o dinheiro e a saúde (da cirrose às, então, denominadas "doenças venéreas"), e se abalavam as relações familiares, eram deixadas para trás como algo "mundano", "da carne", "de satanás".

A nova religião ensinava o valor do estudo, do trabalho (inclusive o manual), os gastos responsáveis, a atenção à esposa e aos filhos, para que todos aderissem à mesma fé e fossem juntos para a Igreja (“eu e minha casa serviremos ao Senhor"), os cultos domésticos (inclusive evangelísticos).

    O resultado, em nosso País, com as Igrejas históricas de missão, bem comprovou a tese de Max Weber. Houve uma mobilidade social, com cada geração sucessiva apresentando melhores níveis de escolaridade e classe social mais alta (inclusive com a ajuda das bolsas de estudo dos colégios protestantes). Reduzia-se a violência doméstica, com famílias mais ajustadas, maior dignidade da mulher, mantendo-se a liderança do homem.

    Dentro das organizações internas das Igrejas as pessoas perdiam a timidez, e desenvolviam o associativismo e o espírito de liderança. Essa ética favoreceu o surgimento da nova classe média e de uma classe trabalhadora qualificada, em um Brasil que se urbanizava.

    A presença do protestantismo, pois, foi positivo para a família, para a saúde pública e para a economia. Era visível a diferença trazida por um Evangelho pessoal. Com mudanças existenciais como essa, os crentes davam certo.

 

Quando os crentes davam certo  (8)

   

    Chegando ao Brasil, depois da expulsão da Ilha da Madeira, o Dr. Robert R. Kalley, pioneiro do congregacionalismo, teve diálogos religiosos com o Imperador Pedro II e membros da Corte, vindo a converter algumas damas.

    Ashbell G. Simonton, o pioneiro do presbiterianismo, ao fundar o jornal “Imprensa Evangélica”, não o via como um órgão de circulação interna entre os protestantes, mas o queria á venda nas livrarias seculares, como uma visão cristã para o mundo.

    Quando o primeiro “Clube Republicano” (embrião do futuro Partido Republicano) foi fundado por Quintino Bocaiúva e Rangel Prestana, dos oito membros dois eram protestantes, os irmãos maranhenses Vieira Ferreira.

    A primeira Igreja protestante de fala portuguesa em nosso País, a Igreja Evangélica Fluminense, no Rio de Janeiro, por seus estatutos, somente permitia a filiação de senhores de escravos, se os mesmos os libertassem.

    O Colégio Gammon, de Lavras, Minas Gerais, tem no pórtico de sua capela o dístico: “Dedicado a glória de Deus e ao Progresso Humano”. Esses colégios que introduziram a educação mista, a educação física, a educação tecnológica e esportes como o voleibol e basquetebol, estavam movidos de uma mesma visão que marcou as primeiras décadas do protestantismo no Brasil, em um tempo em que o pós-milenismo e o a-mlenismo eram as correntes escatológicas hegemônicas.

    Essa visão de um protestantismo participante e procurando influenciar também estava na fundação da Liga Eleitoral Evangélica, para as constituintes de 1934 e 1946. Se antes fora a abolição e a República, o Estado Laico, agora entravam temas como a defesa do divórcio e da reforma agrária.

    Quem se lembra do primeiro Governador de Estado (interino) do Brasil, o líder operário tecelão e pentecostal da Assembléia de Deus, o deputado estadual Torres de Galvão, no Pernambuco dos anos 1950, ou o primeiro assessor evangélico (com status de subsecretário de Estado), o pastor batista Viana Paiva, na primeira gestão de Miguel Arraes, nos anos 1960?

    Quem se lembra d militância de batistas e pentecostais no nascente sindicalismo rural no Nordeste, no final dos anos 1950, ou do documento final da “Conferência do Nordeste”, promovido pela Confederação Evangélica Brasileira (CEB) no Colégio Presbiteriano Agnes Erskine, no Recife, sob o lema “Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro”, ou o manifesto da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, de Vitória, ES, de 1963?

    Em um tempo em que não havia a heresia “crente não se mete em política”, nem o corporativismo maroto do “irmão vota em irmão”, os crentes davam certo...

 

Quando os crentes davam certo (9)

   

    Os colégios protestantes e algumas de suas Igrejas organizavam “sociedades literárias”, onde se debatia obras da literatura brasileira, e onde se estimulavam a produção de contos, poesias e outros gêneros, pelos crentes locais. Havia uma preocupação em conhecer o vernáculo, os crentes eram estimulados a bem falar e escrever o português, bem como o terem a disciplina da leitura, visando uma elevação cultural.

    Líderes com envergadura intelectual existiram desde o começo, não só entre os missionários, mas entre as primeiras gerações de brasileiros. Um fato curioso é que o primeiro pastor batista, Pr Teixeira e o primeiro pastor presbiteriano, Ver. José Manoel da Conceição eram ex-padres católicos romanos.

    Álvaro Reis, Erasmo Braga, Eduardo Carlos Pereira, Miguel Rizzo, Benjamim de \Morais Filho, no sudeste; Jerônimo Gueiros e Natanael Cortez, no nordeste, dentre tantos nomes por esse Brasil afora que honraram as letras. Isso se refletia no respeito que a sociedade em geral nutria pelos mesmos, na influência cultural do protestantismo, e no nível do nosso púlpito (em conteúdo, forma e comunicação).

    Quantas vezes fui (ainda estudante universitário) para a Igreja Batista da Capunga ouvir o Pr Munguba Sobrinho, denominado de “o príncipe dos pregadores batistas”?          

    Os colégios, por seus Grêmios Estudantis, organizavam concursos de oratória. Os Seminários Teológicos “puxavam” pela homilética, quando o “sermão de prova” era um terror para os alunos... Por muitos anos era costume incluir nos cultos a declamação de uma poesia, por pessoas dotadas desse dom de comunicação. Mário Barreto França, Myrtes Mathias e Gióia Júnior estavam entre os poemas favoritos daquelas gerações.

    Nos tempos em que a superficialidade pegava mal, e dizer abobrinhas queimava o filme do freguês, mas bem se lia, se escrevia e se falava; os crentes bem que davam certo...

 

FINAL

  

    Minha aproximação com o protestantismo histórico de missão se deu entre 1958 e 1962, quando o congregacionalismo acabava de completar cem anos (1955) e o presbiterianismo se preparava para comemorar o seu centenário (1959). Neste último caso, tivemos um momento histórico e simbólico: no Culto de Ação de Graças, na Catedral Presbiteriana, da Rua Silva Jardim, Rio de Janeiro, RJ, um presidente da República, no exercício do cargo, comparece a um ato dessa natureza: o presidente Kubistcheck (JK), com a mais ampla repercussão. No ano seguinte (1960) o estádio do Maracanã se enche pela segunda vez (a outra fora na Copa de 1950) para o encerramento da assembléia da Aliança Batista Mundial, tendo como pregador o evangelista Billy Graham.

    Fui de uma geração que conviveu com muitos homens e mulheres de Deus, dos mais simples aos mais eruditos, com histórias de vida e memórias que eu, um adolescente, bebia como ensinamentos existenciais. Se já tenho meio século dos mais velhos, que por sua vez tinham ouvido dos seus mestres o meio século anterior.

Preocupa-me o desconhecimento histórico da presente geração, em relação à História Geral da Igreja, particularmente a Reforma Protestante, e em relação ao passado do protestantismo brasileiro.

    O futuro está no passado, porque o presente é por demais preocupante! Nessa série procurei resgatar alguns feitos e alguns heróis da fé dessa saga, dessa epopéia, que foi a implantação do protestantismo em nosso País, sob as circunstâncias mais adversas. Há um legado perdido; há lições a serem resgatadas.

    Concentrei-me no protestantismo histórico de missão, sem desmerecer a presença (mesmo que isolada do protestantismo de migração), hegemônico de 1855 á 1965. O Pentecostalismo chega em 1909. Depois aparece por aqui o Liberalismo, o Fundamentalismo, o Neo/Póspentecostalismo e por aí a fora. Mas, deixarei para comentar em outra série, que intitularei: "Quando os Crentes às vezes, ainda dão certo".

 

    Que o Senhor nos abençoe!

 

 

Robson Cavalcanti, bispo anglicano.

 

Estou Cansado, por Pastor Ricardo Gondim


ESTOU CANSADO!


Cansei! Entendo que o mundo evangélico não admite que um pastor confesse o seu cansaço. Conheço as várias passagens da Bíblia que prometem restaurar os trôpegos. Compreendo que o profeta Isaías ensina que Deus restaura as forças do que não tem nenhum vigor. Também estou informado de que Jesus dá alívio para os cansados. Por isso, já me preparo para as censuras dos que se escandalizarem com a minha confissão e me considerarem um derrotista. Contudo, não consigo dissimular: eu me acho exausto.

Não, não me afadiguei com Deus ou com minha vocação. Continuo entusiasmado pelo que faço; amo o meu Deus, bem como minha família e amigos. Permaneço esperançoso. Minha fadiga nasce de outras fontes.

Canso com o discurso repetitivo e absurdo dos que mercadejam a Palavra de Deus. Já não agüento mais que se usem versículos tirados do Antigo Testamento e que se aplicavam a Israel para vender ilusões aos que lotam as igrejas em busca de alívio. Essa possibilidade mágica de reverter uma realidade cruel me deixa arrasado porque sei que é uma propaganda enganosa. Cansei com os programas de rádio em que os pastores não anunciam mais os conteúdos do evangelho; gastam o tempo alardeando as virtudes de suas próprias instituições. Causa tédio tomar conhecimento das infinitas campanhas e correntes de oração; todas visando exclusivamente encher os seus templos. Considero os amuletos evangélicos horríveis. Cansei de ter de explicar que há uma diferença brutal entre a fé bíblica e as crendices supersticiosas.

Canso com a leitura simplista que algumas correntes evangélicas fazem da realidade. Sinto-me triste quando percebo que a injustiça social é vista como uma conspiração satânica, e não como fruto de uma construção social perversa. Não consideram os séculos de preconceitos nem que existe uma economia perversa privilegiando as elites há séculos. Não agüento mais cultos de amarrar demônios ou de desfazer as maldições que pairam sobre o Brasil e o mundo.

Canso com a repetição enfadonha das teologias sem criatividade nem riqueza poética. Sinto pena dos teólogos que se contentam em reproduzir o que outros escreveram há séculos. Presos às molduras de suas escolas teológicas, não conseguem admitir que haja outros ângulos de leitura das Escrituras. Convivem com uma teologia pronta. Não enxergam sua pobreza porque acreditam que basta aprofundarem um conhecimento “científico” da Bíblia e desvendarão os mistérios de Deus. A aridez fundamentalista exaure as minhas forças.

Canso com os estereótipos pentecostais. Como é doloroso observá-los: sem uma visitação nova do Espírito Santo, buscam criar ambientes espirituais com gritos e manifestações emocionais. Não há nada mais desolador que um culto pentecostal com uma coreografia preservada, mas sem vitalidade espiritual. Cansei, inclusive, de ouvir piadas contadas pelos próprios pentecostais sobre os dons espirituais.

Cansei de ouvir relatos sobre evangelistas estrangeiros que vêm ao Brasil para soprar sobre as multidões. Fico abatido com eles porque sei que provocam que as pessoas “caiam sob o poder de Deus” para tirar fotografias ou gravar os acontecimentos e depois levantar fortunas em seus países de origem.

Canso com as perguntas que me fazem sobre a conduta cristã e o legalismo. Recebo todos os dias várias mensagens eletrônicas de gente me perguntando se pode beber vinho, usar “piercing”, fazer tatuagem, se tratar com acupuntura etc., etc. A lista é enorme e parece inexaurível. Canso com essa mentalidade pequena, que não sai das questiúnculas, que não concebe um exercício religioso mais nobre; que não pensa em grandes temas. Canso com gente que precisa de cabrestos, que não sabe ser livre e não consegue caminhar com princípios. Acho intolerável conviver com aqueles que se acomodam com uma existência sob o domínio da lei e não do amor.

Canso com os livros evangélicos traduzidos para o português. Não tanto pelas traduções mal feitas, tampouco pelos exemplos tirados do golfe ou do basebol, que nada têm a ver com a nossa realidade. Canso com os pacotes prontos e com o pragmatismo. Já não agüento mais livros com dez leis ou vinte e um passos para qualquer coisa. Não consigo entender como uma igreja tão vibrante como a brasileira precisa copiar os exemplos lá do norte, onde a abundância é tanta que os profetas denunciam o pecado da complacência entre os crentes. Cansei de ter de opinar se concordo ou não com um novo modelo de crescimento de igreja copiado e que vem sendo adotado no Brasil.

Canso com a falta de beleza artística dos evangélicos. Há pouco compareci a um show de música evangélica só para sair arrasado. A musicalidade era medíocre, a poesia sofrível e, pior, percebia-se o interesse comercial por trás do evento. Quão diferente do dia em que me sentei na Sala São Paulo para ouvir a música que Johan Sebastian Bach (1685-1750) compôs sobre os últimos capítulos do Evangelho de São João. Sob a batuta do maestro, subimos o Gólgota. A sala se encheu de um encanto mágico já nos primeiros acordes; fechei os olhos e me senti em um templo. O maestro era um sacerdote e nós, a platéia, uma assembléia de adoradores. Não consegui conter minhas lágrimas nos movimentos dos violinos, dos oboés e das trompas. Aquela beleza não era deste mundo. Envoltos em mistério, transcendíamos a mecânica da vida e nos transportávamos para onde Deus habita. Minhas lágrimas naquele momento também vinham com pesar pelo distanciamento estético da atual cultura evangélica, contente com tão pouca beleza.

Canso de explicar que nem todos os pastores são gananciosos e que as igrejas não existem para enriquecer sua liderança. Cansei de ter de dar satisfações todas as vezes que faço qualquer negócio em nome da igreja. Tenho de provar que nossa igreja não tem título protestado em cartório, que não é rica, e que vivemos com um orçamento apertado. Não há nada mais desgastante do que ser obrigado a explanar para parentes ou amigos não evangélicos que aquele último escândalo do jornal não representa a grande maioria dos pastores que vivem dignamente.

Canso com as vaidades religiosas. É fatigante observar os líderes que adoram cargos, posições e títulos. Desdenho os conchavos políticos que possibilitam eleições para os altos escalões denominacionais. Cansei com as vaidades acadêmicas e com os mestrados e doutorados que apenas enriquecem os currículos e geram uma soberba tola. Não suporto ouvir que mais um se auto-intitulou apóstolo.

 Sei que estou cansado, entretanto, não permitirei que o meu cansaço me torne um cínico. Decidi lutar para não atrofiar o meu coração. Por isso, opto por não participar de uma máquina religiosa que fabrica ícones. Não brigarei pelos primeiros lugares nas festas solenes patrocinadas por gente importante. Jamais oferecerei meu nome para compor a lista dos preletores de qualquer conferência. Abro mão de querer adornar meu nome com títulos de qualquer espécie. Não desejo ganhar aplausos de auditórios famosos.

Buscarei o convívio dos pequenos grupos, priorizarei fazer minhas refeições com os amigos mais queridos. Meu refúgio será ao lado de pessoas simples, pois quero aprender a valorizar os momentos despretensiosos da vida. Lerei mais poesia para entender a alma humana, mais romance para continuar sonhando e muita boa música para tornar a vida mais bonita. Desejo meditar outras vezes diante do pôr-do-sol para, em silêncio, agradecer a Deus por sua fidelidade. Quero voltar a orar no secreto do meu quarto e a ler as Escrituras como uma carta de amor de meu Pai.

Pode ser que outros estejam tão cansados quanto eu. Se é o seu caso, convido-o então a mudar a sua agenda; romper com as estruturas religiosas que sugam suas energias; voltar ao primeiro amor. Jesus afirmou que não adianta ganhar o mundo inteiro e perder a alma. Ainda há tempo de salvar a nossa.

Soli Deo Gloria.

Pastor Ricardo Gondim – Assembleia de Deus Betesda – São Paulo

Enquanto aqui serei para Ti


POESIA CRISTÃ
Alto de Vieira, 24/03/95

Onde quer que eu esteja andando

Ainda que preocupado

Em como começar estou pensando

Algo que me deixa compenetrado


Não importa o lugar

Se é feio ou belo

Eu quero é destilar

O sentimento que eu anelo


Se for noite ou dia

No mar ou na montanha

Tarde quente ou manhã fria

Escrever é a façanha


Contando histórias ou descrevendo cenas

Até sobre gente má ou boa

Quero abrir o coração apenas

E não deixar a mente á toa


Das ideias, palavras extrair

Que expliquem situações

Tentando ao máximo exprimir

Esta usina de emoções


Sim, a poesia estou garimpando

No exercício do romantismo

O momento e a imagem degustando

Com autenticidade e altruísmo

Minha obra e minha rima

Têm uma virtude de ser

Feita em prol da estima

Não do que quero dizer


Mas, o que quero demonstrar

Não é fácil de se explicar

Pois é algo sem par

Deus é quem eu quero louvar!


Não tenho razão de ser

Se não for para descrever

O que não pode se ver

Mas, que é possível de se ter


A certeza de um DEUS supremo

Que de tudo é o autor

E com seu poder estremo

Nos deslumbra com seu amor


Querido amigo,

Enquanto aqui serei para Ti

Mas, quero um dia estar contigo

Contemplando para sempre ao que nunca vi.

     Leitura, estudos, arte e afins são um estilo de vida... meu estilo de vida....

Modernidade Líquida, de Z. Bauman - resenha, por Marcelo GEsta




LIVRO MODERNIDADE LÍQUIDA
resenha, por MArcelo GEsta


    De forma bastante original Z. Bauman, para expor suas idéias, usa a metáfora da fluidez do líquido em contraposição a não maleabilidade do sólido, uma vez que o líquido não se priva de alterações e adaptabilidades constantes diante dos obstáculos á sua frente, ao passo que o sólido priva-se da evolução constante em virtude de seu peso, formato e espaço ocupado.

    Identificado com as tradições e resíduos do passado o sólido possui uma resistenciabilidade que o torna facilmente obsoleto, enquanto que o líquido é identificado á tudo que aponta para o futuro, o novo e a tudo o que possa ser compulsivamente aprimorado. Assim sendo, vê-se a modernidade líquida como a tarefa de derreterem-se os sólidos antigos para criar a relativização e o entrelaçamento entre os interesses individuais e os coletivos.

    Paradoxalmente, a perspectiva de “fluidez” vem da idéia de emancipação, de libertar-se de uma sociedade causadora de obstáculos, e que dificulta e resiste a qualquer transformação ou criatividade. Contudo, a liberdade dos libertários mostra-se utópica e míope, uma vez que a maioria das pessoas teme, subjetivamente, uma liberdade que os levaria a serem responsáveis por sua própria sobrevivência e existência e, assim, é mais fácil aceitar-se o conceito de dependência libertadora, onde a anomia é vista como um fantasma que incapacitaria a “sociedade dos indivíduos”. A rotina que apequena é também a que protege.

    A insatisfação com “o que aí está” coloca nossa sociedade de “indivíduos livres” diante de uma liberdade e uma impotência sem precedentes. A sua casual crítica ás condições da modernidade sólida é incapaz de afetar o curso da modernidade líquida, que embora também receba as críticas não as assimila, uma vez que os novos medos da fluidez sempre estão mudando de domicílio.

    A consumação de nossa satisfação e objetividade na modernidade líquida é sempre vista no futuro e, este quando potencialmente alcançado logo se dilui, pois sempre está á frente de si mesmo, nossa identidade existe como um projeto não-realizado. A fluidez contínua da atual modernidade mostra-se como “um vir á ser constante”, percebemos um futuro que nunca é alcançado, um fim que nunca chega.

    As funções que sobreviveram estão trocando seus papeis e nos pegando desprevenidos, o que era considerado como tarefa “da e para” a humanidade, hoje é visto como atribuição e responsabilidade dos indivíduos e seus recursos. O sistema político diminui sua paternalidade não oferecendo, como antes, a solução, a segurança e a esperança, pois agora o indivíduo é que deve assumir a condução de sua própria vida, buscando os insumos para isso dentro de si mesmo.

    A antiga idéia e performance de cidadão, ou seja, aquele que se moldava e acomodava-se á um grupo ou modelo de conduta, com o intuito de buscar a ação coletiva para compensar sua fraqueza individual, é substituída pela individualização. A modernidade líquida dilui os lugares de conforto e as paradas para a reacomodação, nela não há descanso nem destino final, a coletividade, a afinidade e a intimidade não encontram um endereço, elas se esvaem sobrando apenas o indivíduo só, em um mundo sempre mutante. Assim, as problemáticas individuais não se alinham em uma ação conjunta, pois não há a causa comum, há somente a insatisfação em todos. A contraposição do indivíduo contra o cidadão leva a desintegração da cidadania e á colonização do público pelo privado.

    O espaço público se vê cada vez mais vazio de questões públicas em virtude de uma, também utópica, individualização que é vista de forma ambígua pela sociedade dos cidadãos em busca do interesse comum. Na tentativa de repovoar-se a “agora pública” os indivíduos em busca de seus interesses pessoais, mais uma vez têm que ser vistos como membros de uma sociedade falida que pouco tem a lhes oferecer.

    O assalto da modernidade líquida á modernidade sólida mostra que quanto menos claro for um pensamento, tanto mais claro ele está para a atual humanidade, e quanto menos for avaliado e justificado maior será visto seu “valor humanizante”. Assim, todo pensamento pessoal que pretende ser universalizado é visto com rejeição, pois qualquer verdade pessoal imposta, agora, só gera novos campos de batalha, e para que haja entendimento, diante de toda esta pluralidade imposta, faz-se necessário voltar aos salões da política. Todavia, o Estado atual não pretende mais fornecer, inteiramente, os “insumos básicos” para a sociedade exercer seu papel homogeneamente, pois a cada dia ele abre-se á emancipação de indivíduos que não sabem ao certo o que fazer com sua própria auto-afirmação.

    Um dos grandes ícones da modernidade sólida foi à fábrica da Ford. Inspiradora do “mundo fordista”, marcado pela produção em série, pragmática, repetitiva e sem criatividade, o fordismo era obcecado pelo volume, pela aquisição, pelo excesso de trabalho e pouca ou nenhuma qualidade de vida. O fordismo em seu apogeu inspirou uma ordem monótona, regular, previsível e sem inovação, o que levou a pensar-se em um futuro onde qualquer tipo de escolha ou individualidade com tempo seria extintos. Começar a trabalhar em uma instituição de estilo fordista era sinônimo de mau pagamento e que se terminaria a carreira profissional no mesmo lugar que se iniciou. A busca pelo rompimento com esta estrutura foi o que marcou a decadência e a extinção acelerada do modelo fordista.

    Contrapondo-se ao modelo fordista, surge um novo ícone ligado ao modelo fluído e leve do novo capitalismo, a Microsoft. A Microsoft apresenta uma mentalidade totalmente diferente, onde o capital e a empresa são quase virtuais, podem ser transportados na bagagem de mão, não se submete a territorialidade, ao espaço, ao tempo, e a liberdade, a criatividade, o improviso e a adaptabilidade são seus grandes trunfos. Quem começa uma carreira na Microsoft não sabe aonde vai parar.

    A modernidade sólida deixou um vazio com seu término, que se mostra através de um número enorme e crescente de oportunidades que não param de surgir. As instituições paternais e castradoras que condicionavam e moldavam o comportamento da sociedade, protegendo-a de perigos e desacertos, se extinguiram. Agora, os indivíduos têm diante de si uma ditadura das possibilidades, cada um deve assumir suas competências e riscos. Seu grande problema agora se encontra não na falta da emancipação, mas no excesso de escolhas que deve tomar rapidamente num mundo mutável e evoluível.

    A nova forma de modernidade traz consigo um novo modelo de administração onde o “líder”, ou todos aqueles que ditavam, projetavam, zelavam e supervisionavam o cumprimento das leis são substituídos pelo performático consultor. O consultor ao invés de ser seguido, pode ser contratado e demitido, ele “vende um produto” que ajudará os indivíduos em sua nova tarefa de dia á dia estarem se superando, daí surgindo à busca obsessiva pelo sucesso. Não demorou muito para ligar-se o sucesso á aquilo que poderia ser comprado e consumido em quantidades cada vez maiores, e o consumismo torna-se um vício ligado à auto-expressão e padrão de status.

    O consumismo ultrapassou a idéia de necessidade e valorizou o conceito do desejo, muito mais “fluído e expansível”, em sua dinâmica hedonista, agora um outro estimulante, mais poderoso e versátil, tomou o lugar do desejo, “o querer”. O querer suplanta a comparação, a vaidade e a inveja, ele é imediato e espontâneo, não é necessário o desejo e a necessidade, ele é puramente insincero e infantil, é a satisfação do ego.

    A exacerbação do consumo passa a moldar uma sociedade que se orienta pela sedução a idéias voláteis e crescentes por novos desejos, mas para se alcançar o máximo que a vida tem á oferecer é preciso viver mais e melhor, o corpo deve estar apto e disponível para todas as oportunidades á frente. A ideologia da aptidão refere-se a capacidade de adaptar-se flexivelmente a qualquer circunstância inesperada, a aptidão é vista como uma propensão á emancipação.

    O mundo da modernidade líquida, de tão fluido e mutante que é, com todas as suas ofertas, possibilidades e desafios, indo e vindo constantemente, não permite que as pessoas possuam seu próprio mundo e suas vidas plenamente. Achamos que somente alguns conseguem alcançar o que querem e nós mesmos algumas vezes nos espelhamos nestes exemplos que não passam de ilusão, quando descobrimos que nem eles estão satisfeitos com o alcançado, e, assim, a menos utópica de todas as aquisições passa á ser a própria identidade.

    Quando se busca a própria identidade estamos dizendo com isso que queremos algo familiar, algo que traga o passado ao presente e, juntos, parem o tempo e a metamorfose. A identidade é como um “espaço quântico” onde o universo giraria em torno de nós mesmos. Pura ilusão, uma vez que, para nos identificarmos com a sociedade, abdicamos de algo de nós mesmos e assimilamos inúmeros estímulos criados pela mídia, estímulos esses uniformes e homogeneizantes (chamados de moda) que nos faz mais parecidos com todos, e mais uma vez a identidade trai á si mesma passando a formar outra vez algo idêntico. A modernidade líquida prima pela flexibilidade, mutação e ajuste constante da identidade pessoal, o que sempre á torna um “vir á ser”.

    O conjunto de toda pluralidade existente, somada ao aparecimento de novas possibilidades e a necessidade de ajustes constantes faz com que a mutabilidade das identidades crie novas formas de relacionamentos com outras identidades que também estão sempre mudando. Assim, as parcerias humanas passam á ter aspecto e mercantilização e consumo, pois neste mundo onde tudo tem o “momento da moda” e prazo de validade, as relações humanas também são fúteis, efêmeras, egocêntricas e não solidificadoras de famílias estáveis, amores genuínos e amizades sem interesses.

    A comunidade, última relíquia da modernidade sólida, passa á ser vista como aglutinador de segurança, descanso e intimidade. A comunidade é vista como uma ilha de familiaridade, com outros indivíduos, em meio á uma sociedade urbana que afasta as pessoas do convívio pessoal e estável. Dentro da comunidade as pessoas têm a sensação, ainda que breve, de “calor”, algo não oferecido nos espaços públicos que, apesar de aglutinarem pessoas com interesses comuns, não promovem a interação social. O lugar chamado comunidade possui um fim em si mesmo para aqueles que buscam a estabilidade de suas identidades diferentemente de outros lugares que são vistos como meios, tais como: lugares públicos êmicos, os espaços vazios, os lugares fágicos e os não lugares, todos altamente “desidentificadores”.

    Esta nova e plural civilidade não está criando apenas heterogeneidade, cria também as comunidades étnicas onde o contato recíproco com outras comunidades significa, no máximo, estar provisoriamente no meio de outros e não com os outros. A idéia de insegurança é exacerbada tornando a “comunidade” em “um espaço defensável” onde só fazem parte dele que possui a mesma identidade e interesse, seja ele econômico, étnico, profissional, religioso etc.

    A nova modernidade também contribui para o enfraquecimento das próprias relações humanas que forma, pois ao contrario da modernidade passada, que via na aquisição, no acúmulo e no volume um padrão de riqueza baseado no fordismo (que era estático e monótono), a nova modernidade é obcecada pela fusão de empresas, pelos cortes e renovação de mão de obra, pela redução de tamanho e pela globalização e extraterritorialidade do capital. Assim como as empresas estão sempre mudando e, algumas vezes, até se mudando, o mesmo acontece com as relações humanas e trabalhistas. A fluidez exacerba a instantaneidade, tudo é fugaz, o “longo prazo de validade” não agrega mais valor, pois impossibilitaria um novo consumo, os “objetos duráveis” tornam-se obsoletos rapidamente, a transitoriedade é algo imposto, muitas vezes, até ás relações pessoais dentro das comunidades e das empresas.  

    O progresso foi algo que marcou a modernidade pesada no final do século XIX. O veículo usado para “se ir para frente” era o trabalho da coletividade, visto como a fonte da criação do futuro, e o Estado era aquele que organizava, legitimava, defendia e dirigia a força trabalhadora de forma paternal garantindo uma segurança e uma esperança vista no amanhã. Na atual modernidade ou “capitalismo leve” o trabalho ou missão de melhorar o futuro é visto como algo utópico voltando todas as responsabilidades para o indivíduo, que terá sempre diante de si o desafio perpétuo de conduzir sua própria emancipação, num mundo onde trabalhar não é mais uma condição ética, mas, sim, uma forma estética de se conseguir tudo o que se quer por meio de si mesmo.             

    A individualização deste capitalismo leve coíbe e destrói os interesses comuns nas relações trabalhistas minando a militância e a participação política. O mercado vê como boa às relações de trabalho que sejam menos sólidas e mais fluidas possíveis. O habitante da modernidade contemporânea vive diariamente uma peregrinação enxergando em seu emprego a sua sobrevivência, que sucumbe á cada dia por causa daquilo que ele mesmo criou, ou seja, a modernidade líquida.

    Em reação à acelerada “liquefação” desta vida moderna surge o comunitarismo como resposta ao crescente desequilíbrio entre liberdade e garantias individuais, e como meio de unir força para reivindicar interesses coincidentes, em um mundo que á todos leva á laços fúteis e efêmeros. O abrigo comunitário é formado por indivíduos que possuem os mesmos medos. Todavia diante do pluralismo da sociedade moderna é que se aprendem as vantagens do diálogo, da negociação e da conciliação de interesses diversos, que por sua vez multiplicam oportunidades, agregam valores e ampliam os horizontes da humanidade.

    O “abrigo comunitário” defendido pelo Estado, que promovia sua segurança e estabilidade, se vê mais uma vez ameaçado pelas relações econômicas extraterritorias e globalizadas, promovidas pela Nação (encarregada, antes, de promover a homogeneidade entre as comunidades de um mesmo território) que ultrapassa suas fronteiras, sejam elas quais forem, em busca de um mundo ideal, multinacional e formado por instituições transnacionais, que á propiciem os melhores lucros e emancipações possíveis.

    Assim é o momento da modernidade líquida: fugaz, efêmero, fútil, individualizado, frio, descompromissado, urgente, míope, compulsivo e infeliz. A modernidade líquida é uma viagem que não chega á lugar algum, é um “vir á ser” constante, é a “descoberta que o piloto sumiu”, é o faça você mesmo e não se prenda á ninguém, é “coisificação das utopias” e a “utopialização dos ideais”. Modernidade líquida é uma viajem nem para perto nem para longe, é, apenas, deixar-se embarcar em uma carruagem que relativisa o espaço através de um tempo fragmentado pela velocidade, que não deixa ninguém descansar nem fugir dela própria.

- “Meu desejo de consumo hoje é: tirar férias para poder provar um pouquinho de modernidade sólida, num dia chuvoso, ouvindo flash-back e vendo filmes e desenhos “cult” na “underground” sessão da tarde, tomando ovomaltine e comendo bolinhos de chuva. Morou essa bicho”?

POr Marcelo Gesta Palmarês Martins.