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sábado, 2 de novembro de 2013

DEUS deu ao ser humano a capacidade de fazer cultura


DEUS deu ao ser humano a capacidade de fazer cultura
por Marcelo Gesta

DEFININDO OS TERMOS

a)      Cultura: É a ação de cultivar, é um desenvolvimento intelectual ou religioso, é um saber, um estudo, uma forma de comportamento, é um conjunto de costumes específicos de uma determinada sociedade. Cultivar, por sua vez, é fazer os trabalhos próprios para tornar a terra fértil, é dedicar-se a; formar; procurar manter. Logo, quando cultivamos algo em nós ou em alguém, ou mesmo quando somos cultivados por outros (no sentido de sermos discipulados ou ensinados), aí está sendo formada uma cultura em nós ou em alguém. Portanto, quando assimilamos certa forma de pensar, de agir, de expressar-se, enfim, certa forma de ser e nos comportarmos, e a defendemos ou a perpetuamos através de outros, é porque temos já aí uma cultura em nós.
b)      Identidade: Todo este conjunto de aprendizagens, vivências e interatividades somados também á genética contribuirão para gerar em nós uma identidade. A identidade é algo singular, é a qualidade do que é idêntico, análogo, ou semelhante. A identidade é o que faz com que uma coisa ou alguém seja única ou a semelhante a outra. Quando há o reconhecimento e a aproximação de algo ou alguém como igual e/ou semelhante estabelece-se uma identidade[1]. A identidade é o que me identifica, e quando nós ou alguem estabelece ou se estabelece uma identificação conosco vemos aí algo “idêntico”, similar.

Somos acostumados – mesmo que subjetivamente ou incoscientemente – através da educação, do convívio e da mídia, a ver na cultura que herdamos de nossos antepassados, contemporâneos e pessoas de nosso convívio, uma identidade e uma “entidade” intocável e definitiva.
Carlos A. Messeder Pereira nos diz que “cultura é um produto histórico, ou seja, contingente, mais acidental do que necessário, uma criação arbitrária da liberdade”[2]. Antropologicamente há amplos significados em relação a cultura, que passam pela aprendizagem, assimilação e transmissão de idéias e comportamentos por parte de indivíduos ou comunidades.
Para Edward B. Tylor (1871), “cultura é aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade”[3].
Para Ralph Linton (1936), a cultura de qualquer sociedade “consiste na soma total de idéias e reações emocionais condicionadas a padrões de comportamento habitual que seus membros adquiriram por meio da instrução ou imitação e de que todos, em maior ou menor grau, participam”[4].
Para Franz Boas (1938), a cultura é como “a totalidade das reações mentais e físicas que carcterizam o comportamento dos indivíduos que compõem um grupo social”[5].
Para Felix M. Keesing (1958), a cultura é “comportamento cultivado, ou seja, a totalidade da experiência adquirida e acumulada pelo homem e transmitida socialmente, ou, ainda, o comportamento adquirido por aprendizado social”[6].

INTRODUÇÃO

DEUS, do nada, criou todas as coisas. A Bíblia diz:

No princípio, criou Deus os céus e a terra. A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas. Gênesis 1:1,2 – ARA.
No começo Deus criou os céus e a terra. A terra era um vazio, sem nenhum ser vivente, e estava coberta por um mar profundo. A escuridão cobria o mar, e o Espírito de Deus se movia por cima da água. Gênesis 1:1,2 – NTLH.

Um mundo sem seres vivos ou habitantes não possui comunidade, e sem comunidade jamais haveria ou haverá cultura, e sem cultura não há identidade. Então, dentre tantos seres criados por DEUS, O Senhor cria o ser humano, e dá ao mesmo a capacidade de assimilar ou de fazer cultura. A Bíblia diz:

Então, formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente. Gênesis 2:7 – ARA.
Então, do pó da terra, o Senhor formou o ser humano. O Senhor soprou no nariz dele uma respiração de vida, e assim ele se tornou um ser vivo. Gênesis 2:7 – NTLH.

DEUS foi o primeiro cultivador, e desenvolveu a primeira cultura. A Bíblia diz:

E plantou o Senhor Deus um jardim no Éden, na direção do Oriente, e pôs nele o homem que havia formado. Do solo fez o Senhor Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Gênesis 2:8,9 – ARA.
Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar. Gênesis 2: 15 – ARA.


DEUS deu ao ser humano a capacidade de gerar, desenvolver e ensinar cultura

Quando DEUS gera, desenvolve e ensina a primeira cultura ao homem, igualmente, dá ao ser humano a capacidade de fazer, desenvolver e ensinar cultura, assim desenvolvendo sua própria identidade. Não sou “claude-levi-straussiano”, porém, em uma coisa pelo menos concordo com ele: Claude Lévi-Strauss diz que, de alguma forma, a origem da cultura se dá com o primeiro regulamento desenvolvido. A Bíblia diz:

E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás. Gênesis 2: 16 e 17 – ARA.

Por isso penso que, dessa forma, a própria cultura não seria um fim em si mesmo, porém, um meio para se apreender, entender e atingir um fim: a cultura seria uma forma de regular as relações saudáveis dentro de um meio ambiente repleto de personalidades diferentes, e através destas relações saudáveis é que viria e/ou vem o equilíbrio, a satisfação, o desenvolvimento, a paz e a felicidade. Para isso desde o início foi definido o que se precisava ser feito e o que não deveria ser feito, logo aqui, desde o início tem-se a religião, a ética, a moral, a norma, enfim, a cultura e com ela a identidade.
Também não sou “leslie-whiteano”, todavia – seguindo uma das regras do bom aprender do próprio apostolo Paulo que diz: ‘examina tudo e retende o que é bom’ – outra coisa, ao menos,  tenho que concordar com mais um antropólogo, o conhecido Leslie White, o qual afirma que a procedência da cultura se deu quando o homem foi capaz de suscitar e entender símbolos. A Bíblia diz:

Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais do campo e todas as aves dos céus, trouxe-os ao homem, para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem desse a todos os seres viventes, esse seria o nome deles. Deu nome o homem a todos os animais domésticos, às aves dos céus e a todos os animais selváticos; para o homem, todavia, não se achava uma auxiliadora que lhe fosse idônea. Gênesis 2:19, 20 – ARA

Nomes são símbolos, pois identificam subjetivamente através de uma expressão exclusiva, um objeto ou alguém específico, entre vários outros. O nome não é a coisa simbolizada, mas o que a diferenciará entre uma e outra coisa numa comunicação, apontando para uma identidade. Este símbolo desenvolvido pode ser exprimido através de sons, gestos, palavras, ou mesmo cores e formas.  Possivelmente tenha surgido daí a linguagem e o primeiro dialeto.
A Bíblia diz em Gênesis 2:21 á 25, na versão NTLH:

Então o Senhor Deus fez com que o homem caísse num sono profundo. Enquanto ele dormia, Deus tirou uma das suas costelas e fechou a carne naquele lugar. Dessa costela o Senhor formou uma mulher e a levou ao homem. Então o homem disse: “Agora sim! Esta é carne da minha carne e osso dos meus ossos. Ela será chamada de ‘mulher’ porque Deus a tirou do homem.”
É por isso que o homem deixa o seu pai e a sua mãe para se unir com a sua mulher, e os dois se tornam uma só pessoa.
Tanto o homem como a sua mulher estavam nus, mas não sentiam vergonha.

A partir daí, os indivíduos, percebendo a personalidade de outros vão desenvolvendo a sua própria identidade e arbitrariedade, desta forma as relações entre as individualidades que possuem os mesmos propósitos gerarão a família – a sua célula maternal de todas as sociedades. A família crescendo gerará outras e, assim, essas famílias cultivarão os traços típicos do seu grupo social, o qual terá uma cultura. A cultura, por sua vez, será a matriz que unirá os semelhantes, tendo-se assim – de forma muito resumida – a formação das primeiras sociedades.
Crescendo estas sociedades, as mesmas gerarão uma pluralidade de indivíduos com variadas necessidades e dessemelhanças, e assim, os dessemelhantes da sociedade matriz se unirão a outros dessemelhantes da mesma sociedade, e juntos formarão outras famílias e outros grupos sociais e assim sucessivamente, vão crescendo, dividindo-se e dando origem a outros grupos sociais, a partir das dessemelhanças surgidas. A Bíblia diz:

Coabitou o homem com Eva, sua mulher. Esta concebeu e deu à luz a Caim; então, disse: Adquiri um varão com o auxílio do Senhor. Depois, deu à luz a Abel, seu irmão. Abel foi pastor de ovelhas, e Caim, lavrador. Gênesis 4: 1,2 – ARA
Disse Caim a Abel, seu irmão: Vamos ao campo. Estando eles no campo, sucedeu que se levantou Caim contra Abel, seu irmão, e o matou. Gênesis 4: 8 – ARA
Retirou-se Caim da presença do Senhor e habitou na terra de Node, ao oriente do Éden. E coabitou Caim com sua mulher; ela concebeu e deu à luz a Enoque. Caim edificou uma cidade e lhe chamou Enoque, o nome de seu filho.
A Enoque nasceu-lhe Irade; Irade gerou a Meujael, Meujael, a Metusael, e Metusael, a Lameque. Lameque tomou para si duas esposas: o nome de uma era Ada, a outra se chamava Zilá. Ada deu à luz a Jabal; este foi o pai dos que habitam em tendas e possuem gado. O nome de seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta. Zilá, por sua vez, deu à luz a Tubalcaim, artífice de todo instrumento cortante, de bronze e de ferro; a irmã de Tubalcaim foi Naamá. E disse Lameque às suas esposas:
Ada e Zilá, ouvi-me; vós, mulheres de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos:
Matei um homem porque ele me feriu; e um rapaz porque me pisou. Sete vezes se tomará vingança de Caim, de Lameque, porém, setenta vezes sete. Gênesis 4: 16 á 24 – ARA

DEUS deu ao ser humano não somente a capacidade de fazer cultura, mas também a de arbitrar, e a medida que um indivíduo ou grupo arbitrando se afasta de sua cultura matriz, tende a gerar outra cultura, cada vez mais distante da original, a ponto de desenvolver toda uma cultura antagônica a matriz geradora de todas as outras. Assim, também, se deu com os primeiros seres humanos, que no Início, tiveram uma forma de relacionamento original e ideal com DEUS. Este relacionamento foi sendo adulterado a medida que os seres humanos se afastavam de DEUS, e desta forma “fabricaram” novas formas de relação entre si e com o sagrado, totalmente antagônicas ao relacionamento original e ideal com DEUS, como é o caso da magia e de muitas outras formas de sociedades e religiões que não reconhecem a DEUS como seu único Senhor e Salvador, e assim o ser humano afastou-se de DEUS da mesma forma que produziu e produz variedades totalmente antagônicas de se relacionar ou não com DEUS, como foi a original ocorrida no Éden.
Mas há sempre uma ou mais esperanças, e as mesmas são sempre surpreendentes. A Bíblia diz:

Adão e a sua mulher tiveram outro filho. Ela disse:
– Deus me deu outro filho para ficar em lugar de Abel, que foi morto por Caim.
E pôs nele o nome de Sete. Sete foi pai de um filho e o chamou de Enos. Foi nesse tempo que o nome Senhor começou a ser usado no culto de adoração a Deus. Gênesis 4: 25, 26 – NTLH

CONCLUSÃO

DEUS deu ao ser humano a capacidade de fazer cultura e sua própria identidade, e desde seu primeiro convívio com Seu Criador, o homem teve a oportunidade de ampliar positivamente o relacionamento e a cultura daí desenvolvida entre ambos. Enquanto este relacionamento e cultural original e ideal havia entre ambos, o nome do ambiente onde se aperfeiçoava tal cultura era Jardim do Éden. Quando os princípios culturais ali expostos são alterados, o homem é expulso dali, e, a partir daí, surge então uma trajetória de desenvolvimentos culturais geradores de conflitos, divisões e guerras, dentre outras reações tão terríveis à humanidade.
Estas culturas produzidas arbitrariamente pelos seres humanos não têm a mesma relevância e utilidade para todos os povos. Cada pessoa tem a sua personalidade e necessidades próprias, assim como cada povo tem sua cultura, e o mesmo povo em cada época, também, possui e desenvolve culturas diferentes, e com pluralidade daí surgida, dar-se-ão ainda outros princípios éticos e morais dessemelhantes. Portanto, nenhuma cultura, ou ética, ou moral é apropriada para todos os seres humanos, de qualquer lugar, raça ou momento histórico, a não ser, todavia, a cultura, a ética, a moral, que se originou no Éden em DEUS. Esta, sim, foi feita para todos os homens, de todos os lugares, de todos os povos e de todas as épocas – esta cultura que deveria ser universal e única é a cultura encontrada no relacionamento positivo original e ideal com DEUS, em Suas revelações, e na Sua Palavra. Há uma esperança, e a mesma é surpreendente, A Bíblia diz:

Mas para a terra que estava aflita não continuará a obscuridade. [...]. O povo que andava em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região da sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz. Tens multiplicado este povo, a alegria lhe aumentaste; alegram-se eles diante de ti, como se alegram na ceifa e como exultam quando repartem os despojos. Porque tu quebraste o jugo que pesava sobre eles, a vara que lhes feria os ombros e o cetro do seu opressor, como no dia dos midianitas; porque toda bota com que anda o guerreiro no tumulto da batalha e toda veste revolvida em sangue serão queimadas, servirão de pasto ao fogo. Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz; para que se aumente o seu governo, e venha paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, para o estabelecer e o firmar mediante o juízo e a justiça, desde agora e para sempre. O zelo do Senhor dos Exércitos fará isto. Isaías 9: 1 á 7 – ARA

Que DEUS nos traga de volta ao relacionamento original e ideal, que no Início tiveram com Ele os primeiros seres humanos, e que daí surja um ambiente de equilíbrio, de satisfação, de desenvolvimento, de paz e de felicidade. Que DEUS tenha misericórdia de nós e nos abençoe.





[1] TORRINHA, Francisco; Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Pôrto: Editor Pôrto, 1942, p. 663.
[2] PEREIRA, Carlos Alberto Messeder, O que è contracultura, [Coleção primeiros passos: 69] São Paulo: Editora Nova Cultural: Brasiliense, 1986, p. 14.
[3] LAKATOS, Eva Maria, Sociologia Geral, 5ª ed. São Paulo: Editora Atlas, 1985, pág.135.
[4] LINTON, Ralph, O homem; uma introdução á antropologia, 3ª ed. São Paulo: Martins, 1959. Ideia semelhante se vê em: Lakatos, Eva Maria, Sociologia Geral, 5ª ed. São Paulo: Atlas, 1985, pág.135,136.
[5] BOAS, Franz, Cuestiones Fundamentales de antropologia cultural, Buenos Aires: Solar/Hachete,1984. Ideia semelhante se vê em: Lakatos, Eva Maria, Sociologia Geral, 5ª ed. São Paulo: Atlas, 1985, pág.136.
[6] KEESING, Félix M., Antropologia Cultural, Rio de Janeiro: Fundo de cultura, 1961,pág.49. Ver também Lakatos, Eva Maria, Sociologia Geral, 5ª ed. São Paulo: Atlas, 1985, pág.136. 

RELIGIÃO, ÉTICA E MORAL como formadores das relações pessoais


RELIGIÃO, ÉTICA E MORAL
como formadores das relações sociais
Por Marcelo Gesta

RESUMO

Independente de nossa individualidade ou de nosso “cada-um”, vivemos convivendo, e na interação que todos têm nesta imensa “engrenagem” que é o ou os ambientes a nossa volta, “absorvemos resquícios” de outros, bem como “somos absorvidos” por outros “cada-uns” ou individualidades, e apesar de tanta variedade e dessemelhança ao nosso redor, notamos que há um equilíbrio nas relações humanas saudáveis que não vêm por acaso, mas em virtude das construções proporcionadas pela religião, pela ética e pela moral.

INTRODUÇÃO

“Não há valor estritamente individual: os juízos de valor são sempre coletivos” (Mentré).

 “Cada-um” tem o seu “cada-um” – nosso “cada-um” forma a nossa individualidade e é a nossa individualidade. Toda individualidade é uma existência, visto não haver existência sem individualidade, ou seja, aquele que é aquele não é aquele outro, ser indivíduo é ser singular, único, porém, esta individualidade mesma, pouca coisa tem de inata, mas muito de empírica, pois nosso “cada-um” é a somatória de tudo o que:

a)      Aprendemos a ser e somos;
b)      Aprendemos a pensar e pensamos;
c)      Aprendemos a agir e a interagir e, assim, agimos e interagimos.

Então, considerando-se que toda existência o é, percebe-se também que o ser, o indivíduo sempre encontra-se em algum tipo de meio ambiente, seu ou não, pois não se existe fora de ambiente algum, nada nem ninguém está só ou isolada completamente, ser é também interagir com algo ou alguém que não é si próprio. Percebemos, destarte, que vivemos convivendo. Apreendemos que ninguém é neutro ou independente do que a sua volta ocorre, pois vivemos dentro de uma simbiose que envolve inclusive seres vivos de outras espécies.
Embora falemos o que pensamos, e pensemos e agimos em virtude daquilo que somos, este existir e ser de uma forma específica ou este nosso “cada-um” exclusivo não nasce formado, pronto, uma vez que ele é cultivado ou forjado no dia a dia, nossa individualidade é apreendida e aprendida, principalmente de acordo com o ambiente no qual existimos. Deste modo, o “cada-um” de todo indivíduo é a somatória de outros “cada-uns” de diversas outras pessoas que convivendo diariamente, umas com as outras, “puderam absorver” o “cada-um”, umas das outras, que por sua vez foram “absorvidos de outras” e, anteriormente, de outras, e assim sucessivamente, formando dessa forma inúmeros outros “cada-uns” ou individualidades, pois a individualidade é formada, também, pelas individualidades de outros. Logo, é de comum acordo que todos nós que vivemos em comunidade ou em civilização, fomos, estamos sendo e seremos desenvolvidos e cultivados no dia a dia, também pelas individualidades de inúmeras outras pessoas que, por sua vez, possuem seu próprio “cada-um” formado e cultivado, também, pelo teu “cada-um”, pela tua individualidade.
A individualidade de cada um, por sua vez, faz parte de uma ou “várias engrenagens”, e considerando-se que toda engrenagem trata-se de um anexo, e que a mesma funciona objetivamente, e em conjunto, com um propósito definido e dependente de toda uma estrutura, pois caso contrário não seria uma engrenagem, e sabendo-se que a mesma não existe somente em função de si própria e por si própria, porém em função de uma somatória de necessidades suas e de outros, e que muitas das partes da “imensa engrenagem” possui individualidade e subjetividade, e que, todavia, apesar de tamanha interação que temos com o entorno ambiental, estas “engrenagens”, muitas vezes, são formadas de outras individualidades e/ou indivíduos, e ainda sim, nunca se descobrirá um ser humano igual a outro. Portanto, facilmente encontrar-se-á divergências de opiniões e propósitos, e, assim sendo, conclui-se que necessário se faz haver algo ou alguém que ordene e comande tais relações e interconecções.
Tudo e todos se dependem e/ou se encaixam mutuamente, em maior ou menor proporção, tal qual em uma engrenagem. Se assim o é realmente, basta que uma “pequena peça da engrenagem” funcione mal ou não esteja ajustada de acordo com a realidade do “resto da engrenagem” para que surjam “atritos” e problemas. Assim, alcançamos que nesta simbiótica relação de dar e receber, onde sempre eu, ou alguém, ou alguns, ou todos, há a existência de algo ou alguém que coordene ou administre tais interações, pois do contrário não durariam muito tempo e nem mesmo se estabeleceriam e se consolidariam. É aí que entra a relevância da Religião, da Ética e da Moral.
Percebemos, também aí, que todo arbitrar é dependente de outros arbítrios, e que nenhum arbítrio é incomum, independente, único e inédito, visto seu motivo (o que leva a escolher) não vir de si mesmo, mas de outra coisa, não importando que esta origem seja interna ou externa a si mesmo. Portanto, os arbítrios estão a serviço de outros estímulos “independentes” do mesmo, assim como outros estão a serviço do teu, logo, os arbítrios são servo-arbítrios de outros arbítrios. Ou seja, têm a individualidade de escolher por si próprio, porém, como as escolhas, são efeito de algo causado. A individualidade destes impulsos arbitrários se percebe na vontade, pois quando tenho vontade existo: tenho vontade, logo, existo. Meu ser e/ou minha individualidade é impulsionada por vários estímulos, porém, temos nossa própria vontade que nos leva à tomarmos decisões, algumas muitas vezes que não queremos tomar, ou simplesmente “ficamos apenas na vontade”, de fazermos escolhas ou tomarmos decisões.

Para se viver e até sobreviver, “sozinho” e/ou acompanhado, necessário se faz assumir escolhas – a própria atitude de não fazer escolhas já é uma escolha – e depois de toda(as) escolha(as) vem as decisões. Escolhemos em função de nossa vontade e, por sua vez, as escolhas são um processo de reflexão que praticamos diariamente nos caminhos da vida: na família, na escola, no trabalho, instituição religiosa etc. Uma vez que sempre estamos em algum tipo de ambiente, ainda que não seja o nosso, as nossas as nossas reflexões e escolhas nunca serão neutras, pois o simples fato de refletir – de acordo com nosso “cada-um” – já traz em si a influência, de onde estivemos, estamos ou estaremos, e de tudo ou de todos os que a nossa volta estiveram, estão ou estarão. Vivemos hodiernamente em uma comunidade global. Assim, sempre sofremos influências de construções reguladoras e/ou adaptadoras – que por sua vez foram também refletidos e escolhidos por outros independentes de nós mesmos – que nos fazem ou farão agir e/ou reagir de acordo com as interações que antes tivemos, que estamos tendo ou teremos futuramente. Concluímos, destarte mais uma vez, que há constituições que mantém o equilíbrio saudável nas relações humanas, e que estas são: a religião, a ética e a moral.
A religião, a ética e a moral – os componentes basilares de toda cultura – dirigem, muitas vezes, não ininterruptamente a nossa vontade, mas sempre, sim, o nosso arbitrar. O nosso arbitrar em sociedade, não é livre das e nas interações que temos, porém, nosso arbitrar não se encontra ausente, concluímos então que nosso arbitrar – nem livre nem ausente – é servo arbítrio, pois arbitramos, não somente em virtude de nós próprios ou daquilo que temos vontade, mas também, a serviço de, e de acordo com. Nem sempre nosso arbitrar esta de acordo com nossa vontade, pois podemos ser induzidos á escolhas que não correspondem a nossa vontade, aliás – é justamente a tríade religião, ética e moral – que leva-nos a fazer escolhas e tomar decisões que sejam mais plausíveis com o ambiente em que vivemos.
Podemos descrever, consequentemente, que dentre tantos mecanismos de formação, ordenação e/ou controle que encontramos nas sociedades, temos na religião, na ética e na moral os principais reguladores das civilizações passadas e das presentes. Em função desta comunidade global, hodiernamente vivemos um sincretismo, não somente religioso, mas também ético e moral – a Declaração dos Direitos Humanos, por exemplo, é para todos os povos, a Declaração Internacional dos Direitos Humanos, querendo-se ou não é universal. Logo, a somatória do que somos, pensamos e agimos é e sempre será influenciada por concepções e convicções prévias que reportam à religião, à ética e à moral de onde estivemos ou estamos.
Mas o que seriam a religião, a ética e a moral como cultivadores das relações sociais? É preciso entender previamente o que queremos dizer com Ética, com Moral e com Religião.

ÉTICA

Ética é a ciência da moral[1]. Etimologicamente vem do grego ethos e significa “morada, casa”, “toca do animal”, ou ainda, morada do ser humano. Desenvolvendo seu significado, podemos descrever, incialmente, ethos como “ambiente”, e que é neste e de acordo com este “ambiente” que o ser humano vai gerando princípios subjetivos e objetivos que venham ordenar “o seu mundo”. Aqui, logo percebemos que “tentar ordenar” “o mundo dos outros”, a partir de conceitos próprios, é antiético, visto cada um ter o seu próprio “cada-um”, e que a somatória de todo os “cada-uns” de uma comunidade específica, formará, por sua vez, “o ‘cada-um’ específico desta mesma comunidade específica, em dessemelhança de outras(s). Assim, vemos ethos também como cultura, ou seja, a influência mútua e a interatividade em seu meio ambiente com seus semelhantes e dessemelhantes, levam o ser humano à reflexões sobre a melhor forma de proceder e comportar-se, afim de que haja ordem entre as diversas formas de interação e convívio da sociedade e em sociedade. Logo, ethos ou ética passa a ser um costume não natural, não inato, mas empírico, pois é forjado, é desenvolvido mediante a repetição de atos específicos, considerados os mais plausíveis. Esta reflexão, escolha e prática sobre os atos mais adequados – e que gerará um hábito regulador – é o que chamamos de ética, que por sua vez, pode variar de cultura para cultura.
O hábito institucionalizado e legalizado é a ética. A ética propõe a existência e prática de um valor que seja universal para toda sociedade, e não para todas as sociedades, um bem que tenha autoridade continuamente, um valor-guia para todos os atos humanos em um ambiente simbiótico que envolve tanto os nossos “semelhantes quanto nossos dessemelhantes”, a fim de que haja harmonia, concordância, paz, prosperidade e felicidade. Todavia, lembrando mais uma vez, o que é padrão ético para uma determinada sociedade pode não ser para outra.
Assim, ética é a reflexão, a conclusão e a legalização sobre as atitudes mais adequadas, que garantirão as corretas relações dentro de uma determinada coletividade, afim de que esta definida sociedade não seja destruída, e dessa forma vão se padronizando valores pelos quais as pessoas passam a entender o que é certo ou errado, para tomar as decisões adequadas. Conclui-se, previamente, que se a ética é uma construção do próprio ser humano de uma sociedade específica, e a mesma pode variar de cultura para cultura, e de época para época, então, também aqui, concluímos ser antiético impor a própria ética para sociedades com outra cultura.

MORAL

A moral é a “ciência” que ensina as regras a seguir para praticar o bem e evitar o mau; conjunto das faculdades morais; é o relativo aos costumes; é o que tem bons costumes; intelectual; espiritual[2]. A moral é uma determinada consciência tanto individual quanto coletiva dentro de determinada sociedade.
Enquanto a ética é a reflexão, conclusão e legalização sobre os procedimentos mais adequados dentro de uma sociedade, a moral é o “status” e a prática que a própria prática de certos atos terá, depois de já terem sido refletidos. Ou seja, dependendo da ética com que foram praticados, moralmente falando, os atos terão o status de morais (positivos), imorais (negativos) ou amorais (neutros). Se estes atos forem considerados morais, eles conferirão ao praticante apreço e consideração, pois se entende que conservam o respeito mútuo e as regras do viver apropriado, antes definido pela ética.
Antes da prática deve haver a reflexão, antes da moral deve haver a ética, pois se é a ética que confere preceitos e princípios, então é a moral confere o status de dignidade e respeito aos procedimentos adequados, por isso estes são considerados morais.
Se o que é considerado moral é louvado, então o seu oposto, o imoral é considerado indecente, torpe, pervertido, desonesto, depravado e, obviamente, antiético. A atitude que não é considerada moral é vista como um desvio de conduta e, assim, todo desvio deve ser corrigido, mas dependendo da gravidade de seus agravantes a atitude imoral receberá a devida punição. Ainda que a moral deva ser algo praticado voluntariamente, em virtude das penalidades – objetivas ou subjetivas – que acarretam o seu descumprimento, ela gera, determina e motiva a instituição e a prática do que são ou serão coletivamente as boas relações sociais.

RELIGIÃO
   
Religião[3] é, também, o culto prestado a Deus; doutrina religiosa; crença; fé; dever sagrado; crença viva.
Percebe-se em todos os grupos sociais – desde a antiguidade e, talvez, quase todos os de agora – a presença da religião (tanto como relegere, religio, ou religare, nas palavras de Lactâncio, Cícero ou mesmo Agostinho) como formatadora e normatizadora de uma cultura ou subculturas independentes. A religião faz com que haja, através de trocas simbólicas (no dizer de Pierre Bourdier), uma interatividade e interação capaz de tornar outras subculturas dependentes dela. Assim, percebemos também que toda religião e/ou sistema religioso, cumprindo a função pela qual foi intencionada dentro de sua sociedade, é verdadeira, pois programa culturalmente e socialmente o homem dentro de uma realidade simbólica e própria.
O fato religioso, segundo o sociólogo B. Wilson, é entendido como um “produto social” ou como fruto de uma criação coletiva, dotado de uma especial estrutura simbólica, pelo papel que exerce no interior dos mecanismos sociais. O significado social da religião deve ser buscado na sua capacidade de oferecer categorias e símbolos, que ao mesmo tempo facilitam a compreensão, por parte do homem, da sua situação e lhe dão a possibilidade de avaliá-la e enfrentá-la emotivamente e espiritualmente.
Para Augusto Comte, analisando a religião, a passagem da fase fetichista para a politeísta e daí para a monoteísta, era um progressivo amadurecimento da humanidade para formas cada vez mais complexas de convivência, implicando uma racionalização das próprias crenças religiosas. A Religião estabelece a consolidação e a estabilização da relação homem-Deus-sociedade. A Religião tem, pois, uma função relativa á estabilização do sistema social, porquanto ela coordena cada uma das partes deste, e, ao mesmo tempo, consolida as relações interindividuais, e as atitudes individuais.
Segundo Emile Durkheim, a religião é uma representação simbólica da consciência coletiva que toma conta do indivíduo, suscitando nele um sentimento de submissão que ele expressa através da oração e do rito. O culto não é simplesmente um sistema de sinais com o qual a fé se traduz para fora; é a coleção dos meios com que ela se cria e se recria periodicamente. Assim sendo, percebemos o papel fundamental que a religião tem no seio dos mecanismos sociais, enquanto regula-os, estabelecendo a escala dos significados no conjunto global das formas de onde toda cultura tira a própria especificidade.

CONCLUSÃO

Portanto, desde o início, a religião funciona como a grande criadora, formatadora e catalisadora dos recursos culturais que formarão a ética e a moral dentro das sociedades. A religião, todavia, possui também a capacidade de gerar e manter uma univocidade, bem como, uma metarracionalidade em torno de seus próprios conceitos éticos e morais dentro de uma ou várias sociedades diferentes, pois ela os formata ideologicamente.
É justamente em um mundo globalizado que descobrimos nossas diferenças, e, ás vezes, tão radicais. E por mais que convivendo juntos venhamos nos moldar uns aos outros, pois, afinal, o “cada-um” de cada indivíduo é formado por outros “cada-uns”, ainda sim, como surgem acepções. A religião – de relegere, ou seja, “reler ou fazer uma releitura”; ou mesmo de religare, ou seja, de “religar o que foi desligado”, juntamente com a ética e a moral, têm a capacidade de amenizar as diferenças entre os indivíduos, propondo constantemente a valorização do convívio saudável com o próximo – nada mais ético, moral e religioso que isto.
Que cada um de nós seja feliz em nossas interações sociais.


Bibliografia Recomendada:
BÍBLIA SAGRADA CRISTÃ – ARA.
GEISLER, Norman L. Ética Cristã: Alternativas e Questões Contemporâneas. São Paulo: Edições Vida Nova, 2006.
JOHNSON, Philipp E. As perguntas Certas. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.
TORRINHA, Francisco; Novo Dicionário da Língua portuguesa. Porto: Editora Domingos Barreira, 1942.




[1] Torrinha, Francisco; Novo Dicionário da Língua portuguesa – Editora Domingos Barreira; Porto – 1942, pág. 527.
[2] Idem, pág. 823.
[3] TORRINHA, Francisco. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Porto: Editora Domingos Barreira, 1942, pág. 1019.