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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Dois Poemas de J. T. Parreiras


Dois Poemas de J. T. Parreiras


TE DEUM

“Not because of victories
 
I sing”
Charles Reznikoff
 

Não canto por causa de victórias,
 
tenho tido poucas,
 
mas pelo brilho do sol que nasce
 
para todos os olhos, que pode cegar 
 
de beleza todos por igual,
 
louvo por causa do que a brisa dá,
 
movimentos graciosos
 
às flores, na primavera frágil.
 
O meu hino não é pelas minhas vitórias
 
mas pelo meu dia de trabalho feito
 
ó Deus, até entre as ruínas.



SALMO 121 TALVEZ MODERNO

Antes de partir, vão os meus olhos
tomar a medida dos montes,
tomar a sua dureza nos pés,
a incerteza do degelo e o peso
do sol, antes de partir elevo
o meu corpo do chão através dos olhos,
de onde me virá o socorro?
Tomo um pouco de vinho, preparo
o pão amassado nas dores da farinha
e da água e o azedume dos dias.
É ténue a linha, a terra firme
onde se resvala para o abismo.


Três Poemas de J. T. Parreira: Três Poemas de J. T. Parreira / DESERTO DO SINAI / JONAS

Arte: Xavier
Três Poemas de J. T. Parreira

O GUARDADOR DOS REBANHOS

Sentado numa pedra à beira do Hélicon
conta as cabeças e vê as suas musas
a comerem erva, depois
conduz o lume dos olhos do rebanho
à frescura das águas tranquilas

O seu rebanho faz um arco
de brancura sobre a erva

O guardador de rebanhos rasga
os olhos pelos quatro pontos cardeais
até pelos espinhos, quando uma ovelha
perde o rumo à sua voz.

30/11/2013
 

DESERTO DO SINAI

(Inédito)


Não havia livros para ler
No lugar onde a vastidão dos olhos dos hebreus
Se desterravam ao deserto


O único livro era pedra, a Torá
Estava na pedra
Sabemos que os alísios espalham
E o siroco deixa nas almas
o cheiro do deserto, os ventos são volúveis e modificam as formas.

02/12/2013


JONAS

Eu não sou ninguém. Deixem-me dormir!
(do poema Talvez me chame Jonas)
León Filipe

Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela
dizia Deus, enquanto  em Jope os remadores exercitavam
os músculos para o remo
a longa viagem para Társis através dos altos
castelos do mar, deixem que os conquiste
através do sono, deixai-me dormir
homens do mar, deixai-me rasgar o asfalto
das águas nos meus sonhos, aqui
no recanto mais escuro do navio
Mas é no mar que se faz a tempestade
O meu corpo por um barco e sua carga
e os homens, com os olhos sem outra chave
senão o medo para abrir a alma
e foi tudo
até que o grande peixe me fechou
na sua caverna,  nas raízes do mundo
Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela
disse de novo Deus, sentado à minha espera
abrindo os ferrolhos das trevas
e da ignorância das águas.

10/11/2013