Siga-me

quarta-feira, 25 de junho de 2014

REVELAÇÃO do Sagrado de e/ou de DEUS – parte 1


REVELAÇÃO do Sagrado de e/ou de DEUS – parte 1
Por Marcelo Gesta


  1. DEFININDO OS TERMOS

    REVELAR: aparecer, despontar, manifestar-se, mostrar-se, sair, fazer-se visível.

    O que é Revelação:

a)       Ato de DEUS mostrar-se a Si mesmo, através de seus atributos;
b)       Ato pelo qual DEUS torna conhecido um propósito ou uma verdade (Lc 2.32, ARA; Rm 16.25, v. NTLH; 2Cor. 12.1; Gl 1.12; Ef 3.3).
c)       Ato pelo qual DEUS faz com que alguma coisa seja claramente entendida (Rm 2.5, ARA, v. NTLH).
d)       Explicação ou apresentação de verdades divinas (Sl 119.130, ARA; 1Co 14.26).
e)       A segunda vinda de Cristo (1Pe 1.7).

    SAGRADO: é o contrário do profano; aquilo que é contrário a todas as realidades naturais; é o inobjetável, ou seja, o que não pode ser descoberto ou apreendido empiricamente, sendo dependente o conhecimento sobre o mesmo da revelação.

   REVELAÇÃO do SAGRADO de e/ou de DEUS: A Revelação do Sagrado de e/ou de DEUS – por ELE próprio – é a manifestação que DEUS faz de si mesmo – através de Seus Atributos – e a compreensão da mesma por parte dos seres humanos. Neste processo de manifestação, DEUS prepara adequadamente os próprios meios e formas para se “mostrar” e fazer-Se entendido. Assim, embora os meios sejam plurais o centro da revelação é DEUS, e temos como ápice da revelação a pessoa de Jesus Cristo, ou seja, as revelações mais ricas, profundas e completas são as que se realizaram em Cristo Jesus, no que Ele disse, no que Ele fez, faz, e no que Ele “foi” e é. A revelação não tem por fim simplesmente informar ao homem acerca de DEUS, mas também, descobrir DEUS ao homem, e prepará-lo para melhor se relacionar com DEUS, portanto, DEUS quer que o homem O conheça e tenha com ELE um relacionamento de amor e intimidade, daí a razão de aproximar-Se do mesmo. As revelações mais ricas, profundas e completas são as que se realizaram em Cristo Jesus, no que Ele era, no que Ele disse, no que Ele fez. Observando, ainda, que Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e o será eternamente (Hebreus 13:8).


  1. OBSERVAÇÕES PRELIMINARES
    Houve um determinado momento, nos primórdios da história da humanidade, em que DEUS, apesar de todos os seus atributos comunicáveis e incomunicáveis aos seres humanos, se relacionava com os mesmos diretamente, é o que percebemos ainda que de forma incipiente, por exemplo, em Gênesis dos capítulos 1 ao 3, principalmente. Posteriormente a tais interações entre os seres humanos e DEUS, houve a “Queda” (Gênesis 3), a qual aniquilou profundamente tal interação, vindo a partir daí a necessidade emergencial da graça de DEUS. Mesmo antes da queda, DEUS é que é a matriz da Revelação, Revelação esta que continuará de forma extraordinária após a mesma ‘Queda’. Destarte, percebe-se a Revelação como um processo também de educar, de preparar as pessoas para DEUS. E neste processo, por exemplo, DEUS preparou homens que formariam uma nação, ou seja, a nação-povo eleito, Israel, nação esta que posteriormente prepararia todas as outras para DEUS. E neste processo, DEUS usou, pelo menos, 3 agências na educação do povo eleito:

Lei: Mandamentos e ameaças – o povo passa a ser nação, estado;
Profecia: Teofanias e Milagres / Verbal: como um “proto-evangelho” / Típica: com personagens que apontavam para o messias – o povo passou a crer num DEUS único, pessoal e onipotente;
Julgamento: sistema sacerdotal e sacrificial – o povo passa a ter esperança de perdão, passa a cultuar corretamente, gera sua ética e moral.



3.     POR SER DEUS INOBJETÁVEL ELE REVELA-SE

Diferente e acima de todas as realidades naturais, DEUS – o Ser Supremo e Absoluto – é “a realidade” primeira e última, acima está de todo o Universo. DEUS é “O Totalmente Outro”, “O Incompreensível”, DEUS transcende até mesmo o sobrenatural. Nas profundezas de Seu divino Ser, O homem não pode conhecê-Lo como Ele é. Só o Espírito Santo de Deus pode esquadrinhar as coisas profundas de Deus (1Co 2.10, 11). É impossível ao homem ter um conhecimento perfeito e completo de Deus, porque para possuí-Lo teria de ser maior do que Deus. A pergunta de Jó é uma negação direta da habilidade do homem para compreender o Infinito:

"Porventura desvendarás os arcanos de Deus ou penetrarás até à perfeição do Todo-Poderoso?"  (Jó 11.7).

DEUS sendo espírito é imaterial, atemporal e inobjetável, portanto, não pode ser apreendido pelos sentidos ou pela razão, logo, não pode ser nem descoberto, nem estudado, nem abrangido ou abarcado. Então, visto que a razão humana só trabalha com o que pode ser tocado por ela mesma, de forma empírica como se dá com as realidades naturais, assim, nunca descobrirá o que faz parte das realidades sobrenaturais ou as extranaturais, pois são metafísicas, algumas vezes mesmo transcendem até a metafísica. Então, necessário se faz DEUS revelar-se ao ser humano.

  1. DIFERENÇA ENTRE REVELAÇÃO, e IDEIAS NATAS e INATAS.
 DEUS criou o ser humano a Sua imagem e semelhança (Gênesis 1 e 2). DEUS colocou a eternidade no coração do homem, algumas idéias inatas e racionais, ou seja, idéias que não são adquiridas com a experiência ou pela experiência, e por isso são anteriores a ela, a isto chamamos de ideias inatas. Ao contrário de ideias natas, ou seja, aquelas que de uma ou outra forma aprendemos nas interações de nossa existência.

Deus marcou o tempo certo para cada coisa. Ele nos deu o desejo de entender as coisas que já aconteceram e as que ainda vão acontecer, porém não nos deixa compreender completamente o que ele faz. Eclesiastes 3:11 – NTLH

Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim. Eclesiastes 3:11 – ARA

Tudo fez formoso em seu tempo; também pôs o mundo no coração deles, sem que o homem possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até ao fim. Eclesiastes 3:11 – ARC
- Gênesis 1 e 2.

    Idéias inatas: são aquelas que não poderiam vir de nossa experiência sensorial porque não há objetos sensoriais ou sensíveis para elas, nem poderiam vir de nossa fantasia, pois não tivemos experiência sensorial para compô-las a partir de nossa memória. A idéia do infinito e da eternidade, por exemplo, são inatas, pois não temos nenhuma experiência sensorial e racional da infinitude ou da eternidade. As idéias inatas são inteiramente racionais e só podem existir porque já nascemos com elas. Os princípios da própria razão são idéias inatas, como, por exemplo, as idéias matemáticas (a matemática pode trabalhar com a idéia de uma figura de mil lados, o quiliógono, e, no entanto, jamais tivemos e jamais teremos a percepção de uma figura de mil lados). Assim como as de “noções comuns da razão”, por exemplo, “o todo é maior do que as partes”. Também são inatas as idéias simples conhecidas por intuição intelectual (é o caso do cogito). Segundo Descartes, por exemplo, as ideias inatas são as mais simples que possuímos (simples não quer dizer “fáceis”, e sim não-compostas de outras ideias). A mais famosa das idéias inatas cartesianas é o “Penso, logo existo”. Por serem simples, as idéias inatas são conhecidas por intuição e são elas o ponto de partida da dedução racional e da indução, que conhecem as idéias complexas ou compostas.

Essas ideias inatas, diz Descartes, por exemplo, são “a assinatura do Criador” no espírito das criaturas racionais, e a razão é a luz natural inata que nos permite conhecer a verdade. Como as idéias inatas são colocadas em nosso espírito por Deus, serão sempre verdadeiras, isto é, sempre corresponderão integralmente às coisas a que se referem, e, graças a elas, podemos julgar quando uma idéia adventícia é verdadeira ou falsa e saber que as ideias fictícias são sempre falsas (não correspondem a nada fora de nós).
Ainda a tese central dos inatistas é a seguinte: SE desde nosso nascimento, NÃO possuirmos em nosso espírito a razão (com seus princípios e leis) e a verdade – ainda que de forma incipiente – NUNCA teremos como saber se um conhecimento é verdadeiro ou falso, isto é, nunca saberemos se uma idéia corresponde ou não à realidade a que ela se refere. Não teremos um critério seguro para avaliar nossos conhecimentos.
Ideias Inatas, para Leibniz, por exemplo, são representações que se encontram na alma antes de qualquer impressão sensível, elas lá estão virtualmente e somente os sentidos são capazes de atualizá-las, elas representam as razões eternas de Deus como fundamento necessário de toda a metafísica, assim encontramos a revalidação do inatismo para o conhecimento da moral e da metafísica.
Todavia, para Locke (empirista), por exemplo, a mente humana ao nascer é como uma “tábula rasa ou louza vazia”, pela falta de experiências nada há lá, pois o conhecimento só pode ser adquirido por meio da experiência, uma idéia só existirá de fato se ela antes for percebida pelos sentidos. Neste caso, os sentidos são para o homem as janelas da alma, e, segundo as palavras de Locke:

Afirmar que uma noção está impressa na mente e, ao mesmo tempo, afirmar que a mente a ignora e jamais teve dela qualquer conhecimento, implica reduzir estas impressões a
nada” (LOCKE, 1983, p. 146).

Por sua vez Leibniz diz:

Ora, a reflexão não constitui outra coisa senão uma atenção àquilo que está em nós, já que os sentidos não nos dão aquilo que já trazemos dentro de nós” (LEIBNIZ, 1988, p. 6).

Para Leibniz a alma em si não pode ser assemelhada a uma lousa vazia, como Locke afirmava. Antes disso, é como se a alma se assemelhasse a uma pedra de mármore que possuísse veios nos quais já estivesse virtualmente inscrita a figura de Hércules. Desse modo, a experiência é, para a razão, uma confirmação daquilo que já está presente na alma, virtualmente.
Quando olhamos para dentro de nós, desliga-mo-nos do mundo externo, do mundo natural, físico, e nos voltamos ao metafísico, “ás vezes, até as portas do sobrenatural”... Se nesta caminhada á reflexão houver a direção do Espírito Santo, teremos resultados próprios, que em muito nos conduzirão á DEUS, caso contrário, teremos resultados diferentes. As verdades inatas sobre DEUS são afloradas e reveladas pelo Espírito Santo, como veremos adiante. Se todas as idéias inatas se encontram no interior da alma, é porque elas contêm uma razão maior de ser e oferecem algo que é divino. São elas que “ajudam e/ou possibilitam” o conhecimento da moral e da subjetividade humana, e, em outras palavras, é esta relação que se tem entre o plano divino de Deus e as representações virtuais da alma.
Leibniz faz uma clara distinção entre as representações virtuais da alma e aquilo que é adquirido pela experiência. Aquilo que é adquirido pela experiência, terá variações de pessoa para pessoa, de povo para povo, de época para época, todavia, as representações virtuais da alma, ou idéias inatas (pecado; certo e errado; morte e vida etc.), são quase ou mesmo iguais, de pessoas para pessoa, de povo para povo, de época para época – ideias inatas têm poucas variações no tempo e no espaço, às vezes nenhuma. A ideia de um Ser infinito, onisciente e de uma grandíssima bondade só pode advir do espírito humano por meio das idéias inatas. É assim que o Espírito Santo nos mostra, também, as idéias de virtude, do bem e da bondade, é desta forma que o Espírito Santo guia o espírito humano ao caminho da verdade, que é Deus.

Idéias inatas nos falam sobre realidades inatas, todavia, há Realidades Transcendentes que nem mesmo inatas são, e nem mesmo estão na alma impressas: são as realidades, de DEUS (ou divinas), o Sagrado, que nos são ocultas, ou inalcançáveis ou inobjetáveis. Algumas dessas são reveladas por DEUS, outras não:

Há coisas que não sabemos, e elas pertencem ao Senhor, nosso Deus; mas o que ele revelou, isto é, a sua Lei, é para nós e para os nossos descendentes, para sempre. Ele fez isso a fim de que obedecêssemos a todas as suas leis. Deut. 29:29 – NTLH

As coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei. Deut. 29:29 – ARA

As coisas encobertas são para o Senhor, nosso Deus; porém as reveladas são para nós e para nossos filhos, para sempre, para cumprirmos todas as palavras desta lei. Deut. 29:29 – ARC

Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Porque quem compreendeu o intento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele, e por ele, e para ele são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém! Rom. 11:33-36 - ARC

A percepção de verdades inatas, algumas vezes, vem através dos sentidos e da razão, mas a percepção de Verdades Sagradas somente vem como REVELAÇÃO através do Espírito Santo de DEUS.

E vós tendes a unção do Santo e sabeis tudo. 1João 2:20 – ARC
Porém sobre vocês Cristo tem derramado o Espírito Santo, e por isso todos vocês conhecem a verdade. 1João 2:20 – NTLH

Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca. Marcos 14:38 – ARA (Obs.: “o espírito/alma está pronto – a percepção através da razão? / a carne é fraca – só percebe pelos sentidos?”).

Os sentidos, se bem que necessários para os nossos conhecimentos, não são suficientes para dar uma exatidão sobre tudo, visto que eles só nos fornecem exemplos, ou seja, verdades particulares ou individuais. Os sentidos (“eu sinto, eu percebo, eu acho”) – e até mesmo a razão – nos dão uma ideia, ou ideias, que variam de pessoas á pessoa, de cultura para cultura, e que, portanto, não podem ser referência última para todos os que sentem, percebem, observam e raciocinam de formas diferentes. Ou seja, o ser humano não pode se limitar à própria experiência, pois isto seria o mesmo que permitir a vitória da preguiça sem examinar a fundo as razões e as origens do conhecimento, de outra parte, o ser humano não pode se limitar à própria experiência, pois como a própria Bíblia nos diz:

Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?’ Jeremias 17: 9 – ARA.

Portanto, só conhecemos as Revelações de DEUS não tendo como matriz nós mesmos, porém, só conhecemos as Revelações de DEUS, a partir DELE mesmo, e isto em virtude de Sua Graça.

CONCLUSÃO

Sabemos que ao contrário do mundo material (físico), que tem tempo e espaço, o mundo espiritual é eterno, não tem espaço ou tempo, logo, a própria verbalização é improvável, pois pede, demanda tempo, espaço e ação. Assim, o que se dá no mundo espiritual não pode ser descrito, explicado ou reproduzido no mundo físico, o que sabemos sobre lá é apenas um vislumbre através das revelações do Espírito Santo de Deus. É através dos sentidos que as idéias inatas sobre DEUS são reveladas, são descobertas do espiritual ao natural, pelo Espírito Santo de DEUS (Salmos 19).
A revelação divina, através do Espírito Santo, é que nos descobrem as verdades inatas e sagradas colocadas ou não, por DEUS, em nós. Todavia, há realidades extranaturais ou sobrenaturais que não nos foram transmitidas nem mesmo de forma inata – algumas destas nos são reveladas outras não (Deut. 29:29 / Rom. 11:33-36). A Bíblia diz que DEUS colocou a eternidade no coração do homem. Ao mesmo tempo é possível ao homem conhecer a Deus numa medida que é perfeitamente adequada às suas necessidades pessoais. Mas até mesmo este conhecimento só pode ser adquirido porque aprouve a Deus Se revelar. Isto significa, de acordo com o que dizem as Escrituras Sagradas, que Deus removeu o véu que O cobria e Se expôs à vista. Em outras palavras, Ele tem de alguma maneira comunicado ao homem o conhecimento de Si mesmo, abrindo-lhe o caminho para conhecê-Lo, adorá-Lo e viver em comunhão com Ele, a isto chamamos REVELAÇÃO.



Palestra proferida pelo facilitador-professor-pastor Marcelo Gesta
Igreja Batista – CBB / marcelogesta@gmail.com